Como a IA está transformando o treinamento de jovens advogados nos escritórios de advocacia

01/04/2026

A adoção de inteligência artificial em processos operacionais exige que os escritórios de advocacia reformulem a capacitação para que advogados juniores consigam atender às demandas do mercado

As novas gerações são o maior ativo de qualquer profissão, pois garantem a continuidade das práticas mesmo após a aposentadoria dos profissionais mais velhos. Esse ciclo de renovação profissional também acontece na advocacia brasileira. De acordo com o Mapa do Ensino Superior no Brasil 16ª edição / 2026, elaborado pelo Instituto Semesp, 561.465 estudantes de Direito graduaram-se em todo o território nacional entre os anos de 2020 e 2024.

Esse contingente de mais de meio milhão de jovens profissionais ingressou no mercado de trabalho em busca de oportunidades em escritórios de advocacia para consolidar suas carreiras. Historicamente, os escritórios utilizavam atividades consideradas mais operacionais — como a análise e a revisão de contratos — como método de treinamento para advogados juniores; no entanto, a ascensão da inteligência artificial (IA) alterou essa dinâmica de aprendizado.

A automação de tarefas repetitivas estabeleceu um novo paradigma para a gestão interna dos escritórios. Atualmente, as bancas têm a missão dupla de treinar novos talentos e, simultaneamente, viabilizar o retorno sobre o investimento em IA em suas operações. Diante desse cenário, a pergunta que emerge é: como equilibrar a eficiência tecnológica com a formação dos futuros advogados?

Ponto inicial de formação para jovens advogados

Atualmente, os escritórios de advocacia brasileiros já utilizam a inteligência artificial em diversas frentes operacionais. De acordo com o anuário ANÁLISE ADVOCACIA 2026, entre os 340 escritórios Mais Admirados que participaram do levantamento sobre o uso interno da ferramenta, 63% afirmam aplicar a tecnologia na pesquisa e na análise de jurisprudências e doutrinas. Complementando esse cenário de automação, 48% das bancas que responderam ao levantamento utilizam a tecnologia para redigir, revisar e analisar contratos de forma automatizada. Antes da ascensão da IA, os escritórios delegavam essas atividades a profissionais iniciantes como método de treinamento; agora, a ausência dessa base exige novos métodos de formação.

Para Thiago Massicano, sócio gestor do Massicano Advogados, o aprendizado dos jovens advogados começa agora pela formulação de teses jurídicas, identificação de nuances nos detalhes e revisão do que a tecnologia produz.

“O novo ponto de partida para o advogado júnior deixou de ser a execução mecânica e passou a ser a compreensão estratégica do direito. Atualmente, a IA assume a triagem de documentos e a elaboração de minutas básicas, o que nos permite direcionar os jovens talentos para a análise crítica dos casos desde o primeiro dia”, destaca Massicano.

Dentro do Chalfin, Goldberg & Vainboim Advogados, o ponto inicial de aprendizado ainda contempla peças de menor complexidade, análise de fatos e leitura de subsídios trazidos pelos clientes. A estrutura pedagógica, contudo, ganhou nova agilidade com o suporte tecnológico que a inteligência artificial trouxe ao escritório.

“A diferença é que esse percurso agora ocorre em um ambiente mais produtivo, no qual a IA acelera etapas operacionais e libera tempo para que o jovem advogado desenvolva precocemente o que realmente importa: raciocínio jurídico, capacidade analítica e senso crítico”, aponta Carlos Renato Godoy dos Santos, sócio administrador do escritório.

Soft skills para o futuro

Embora a inteligência artificial traga inúmeros benefícios operacionais aos escritórios de advocacia, certas qualidades permanecem intrínsecas ao ser humano. Nesse cenário, os jovens advogados precisam expandir sua preparação para além da técnica processual, desenvolvendo habilidades comportamentais — soft skills — para assegurar relevância em um mercado em constante transformação.

Marcus Valverde, sócio fundador do Marcus Valverde Sociedade de Advogados, afirma que o escritório já implementa treinamentos específicos de soft skills para seu corpo técnico. Contudo, ele ressalta que essa capacitação não se restringe a temas jurídicos formais ou estritos. “Todos os nossos colaboradores são treinados em teoria de negociação, pois julgamos que essa competência é fundamental para a perenidade no mercado e para a entrega de serviços de alta qualidade. Além disso, incluímos estudos de gestão, estratégia e desenvolvimento pessoal, elementos que auxiliam o profissional a pensar de forma crítica e estratégica”, destaca Valverde.

No Chalfin, Goldberg & Vainboim Advogados, Carlos Godoy ressalta que a banca tem trabalhado o aprimoramento dessas habilidades não apenas com jovens talentos, mas também com as lideranças. O sócio administrador acredita que, embora a formação técnica continue essencial, ela deve caminhar lado a lado com o desenvolvimento humano e relacional.

“Entendemos que a formação do advogado não pode mais ser restrita à técnica processual. As soft skills já são centrais hoje e serão ainda mais decisivas no futuro. O advogado do amanhã será cada vez menos definido pela capacidade de executar volume e cada vez mais pela habilidade de interpretar cenários, construir soluções e gerar confiança”, analisa Godoy.

KPIs para jovens advogados na era da IA

Com essa transformação das atividades jurídicas, os indicadores-chave de desempenho (KPIs) também precisam de ajustes para comportar as novas demandas do mercado. O sócio gestor do Massicano Advogados aponta que a eficiência e a atenção aos detalhes continuam sendo avaliadas, mas agora sob a ótica da capacidade de gerenciar e auditar ferramentas de IA garantindo a precisão dos resultados. Nesse contexto, ele destaca os principais indicadores aos quais as bancas devem se atentar:

  • Habilidade de formular estratégias jurídicas inovadoras;
  • Proatividade na identificação de riscos para os clientes;
  • Qualidade da argumentação em casos complexos;
  • Engajamento em iniciativas de mentoria reversa;
  • Clareza e assertividade na comunicação;
  • Capacidade de trabalho em equipe.
“Os novos KPIs para a promoção de um advogado júnior devem refletir a transição de uma advocacia de volume para uma advocacia de alto valor agregado. O profissional é promovido quando demonstra saber utilizar a tecnologia para potencializar seu trabalho sem perder a visão crítica e a responsabilidade ética”, destaca Thiago Massicano.

Confiança cega e os limites da automação

De acordo com dados divulgados pelo anuário ANÁLISE ADVOCACIA 2026, 47% dos escritórios eleitos Mais Admirados já utilizam a inteligência artificial (IA) em suas rotinas. Entre os ganhos mais relevantes apontados pelas bancas está a eficiência (96%), seguida pela economia (46%), precisão (38%) e conformidade (25%).

Esses indicadores revelam que as ferramentas têm sido incorporadas por toda a estrutura das bancas, o que inclui os advogados em início de carreira. Marcus Valverde diz que a banca foca no treinamento desses profissionais para a utilização correta de métodos tradicionais, além de reforçar o estudo de Python e lógica de programação. Por meio dessa base técnica, os advogados aprendem a arquitetura da tecnologia e ficam mais atentos às suas limitações.

“Evitamos que os profissionais mais jovens confiem cegamente na IA por meio do aguçamento de sua capacidade crítica, método que aplicamos a todos os colaboradores do escritório”, aponta Marcus.

Expertises geracionais em favor do negócio

Além da adoção da inteligência artificial, os escritórios precisam lidar com a coexistência de diferentes gerações em suas estruturas. Em uma mesma banca, podem conviver profissionais novatos e veteranos, cada qual com necessidades e desafios distintos, especialmente no que tange à adaptação tecnológica.

Carlos Godoy observa esse fenômeno com interesse e aponta que converter essa dualidade em um ativo para a banca é a melhor forma de equilibrar as demandas internas e fortalecer o negócio como um todo.

“O júnior contribui com novas ferramentas e ganhos de eficiência; o sênior aporta critério e profundidade jurídica. Esse intercâmbio fortalece a equipe, evitando tanto a resistência à inovação quanto o uso superficial da tecnologia”, argumenta Carlos.

Densidade jurídica

Sem esse período tradicional de treinamento nas bancas, emerge a preocupação de os advogados juniores carecerem de densidade jurídica suficiente para comandar casos complexos. Contudo, Carlos Godoy afirma que, dentro do escritório, há o entendimento de que a IA não substituirá o advogado. Dessa forma, a ferramenta proporcionará mais tempo para a análise crítica dos fatos e para a construção de estratégias robustas.

“A densidade jurídica não depende necessariamente da repetição mecânica de tarefas, mas da qualidade da formação, da exposição a problemas jurídicos relevantes e da exigência de pensamento crítico. Se a inteligência artificial for utilizada corretamente, ela não empobrece a formação; ao contrário, pode enriquecê-la”, finaliza Godoy.

Publicado em Analise

Compartilhe nas suas redes sociais

LinkedInFacebook