Fictor planeja reestruturação com foco em carnes e energia e diz ter abandonado SCPs porque modelo se tornou insustentável
10/02/2026
Empresa teve pedido de recuperação judicial parcialmente aceito pela Justiça de São Paulo, que suspendeu cobranças por 30 dias. Documento aponta crise após tentativa de comprar Master
Por João Sorima Neto — São Paulo
04/02/2026 17h14 Atualizado há 4 dias
Em meio a uma crise financeira e reputacional, o Grupo Fictor, que tentou comprar o banco Master, apresentou à Justiça em seu pedido de recuperação judicial medidas para reestruturar suas operações, reorganizar passivos e ressarcir R$ 4,12 bilhões a 13 mil credores.
A estratégia inclui o encerramento da comercialização de grãos, a extinção da oferta de Sociedades em Conta de Participação (SCPs) e a venda de ativos de energia e imobiliários.
Advogados consultados pelo GLOBO avaliam que empréstimos e uma injeção de capital também devem ser necessários para a reestruturação da companhia. E avaliam que os credores deverão votar pela inclusão das demais subsidiárias no processo.
A Fictor Holding, que tem capital social registrado em 2026 de R$ 997 milhões, já vinha reestrutrando os negócios, antes mesmo de fazer a proposta de compra do Master, em novembro passado, informou a empresa à Justiça.
A companhia informou que encerrou suas atividades de comercialização de grãos e extinguiu a oferta de Sociedades em Conta de Participação (SCPs) no agro.
Master abalou credibilidade
Desde o fim do ano passado, a empresa tem atrasado o pagamento a clientes que aplicaram em seus contratos de SCP, um instrumento financeiro controverso e que não tem garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Segundo o grupo, o elevado volume de pedidos de retirada de capital após a frustrada compra do Master tornou o modelo insustentável. Desde agosto de 2024, a empresa já não ofertava novas SCPs, reduzindo riscos, segundo a explicação da empresa à Justiça.
A Fictor também capta recursos via fundos de investimento geridos pela Fictor Asset, que ficou fora do pedido de RJ. São cinco fundos operacionais com patrimônio líquido de cerca de R$ 300 milhões.
Braço de alimentos é esperança
A Fictor Alimentos é a principal aposta do plano de recuperação. A Fictor descreve essa área como o “grande motor” do grupo. A subsidiária, especializada em proteína animal (aves e suínos), responde sozinha por 87% do faturamento projetado para os próximos anos, que é de R$ 691 milhões.
A empresa diz contar com cinco unidades industriais em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, que opera com modelo verticalizado, o que significa que a empresa produz desde a matéria-prima e fica responsável por todos os processos, até a distribuição final.
A capacidade instalada permite o processamento de cerca de 745,5 toneladas de produto acabado por dia, o equivalente a mais de 16 mil toneladas mensais. Em 2025, a empresa adquiriu a Unidade Produtiva Isolada (UPI) da Mellore, em Betim (MG), ampliando sua capacidade produtiva em aproximadamente 1.691 toneladas mensais.
Exclusão de subsidiárias da recuperação judicial
Um ponto central para a Fictor se manter operacional é excluir suas subsidiárias (que atuam em três segmentos muito variados: alimentos, energia e mercado imobiliário) da recuperação judicial. Segundo a Fictor, a atuação dessas empresas é indispensável para gerar fluxo de caixa necessário ao pagamento dos credores da holding e da Fictor Invest.
Para Eduardo Terashima, sócio de resolução de disputas e contencioso do NHM Advogados, as medidas anunciadas pela Fictor no plano estão alinhadas ao contexto de uma empresa que busca a reestruturação. Mas o especialista acredita que é bastante provável que os credores façam um movimento para incluir as subsidiárias na recuperação judicial.
— Afinal, essas empresas representam boa parte do faturamento do grupo — afirma.
Cláudio Miranda, sócio do escritório Chalfin Goldberg Vainboim Advogados, especialista em direito empresarial, destaca a falta de previsão de injeção de novos recursos na empresa:
— As medidas apresentadas parecem tímidas. Alternativas como financiamentos, injeção de capital, venda de ativos que gerem caixa e reduzam o peso da dívida são opções que deverão ser colocadas à mesa.
No pedido de recuperação judicial, a empresa solicitou a suspensão de ações e execuções por 180 dias ganhando fôlego para evitar novos bloqueios judiciais e arrestos de valores, como os R$ 150 milhões bloqueados pela Justiça, na semana passada, usados como garantia numa operação de cartões de crédito.
Novos bloqueios, diz a empresa, “poderiam comprometer a liquidez operacional durante o processo de reestruturação”. A Justiça concedeu 30 dias de suspensão das execuções e pediu um laudo sobre a situação das empresas.
Listada na Bolsa
A Fictor Alimentos está listada na Bolsa de São Paulo, a B3, após a empresa fazer um IPO reverso. Nesse tipo de operação, uma empresa de capital fechado compra uma empresa que já tem ações na Bolsa, evitando o longo processo burocrático de abertura de capital, onde devem ser apresentadas todas as informações financeiras da companhia.
Ainda segundo as explicações da empresa à Justiça, a estratégia para se reestruturar inclui o fortalecimento da marca, com patrocínios de longo prazo, como o acordo com o Palmeiras, iniciado em março de 2025, e o apoio ao atletismo brasileiro até 2029.
Mas o Palmeiras rescindiu o contrato de R$ 75 milhões com a empresa, depois que a parcela de janeiro deste ano (algo em torno de R$ 2,6 milhões) não foi paga. O Palmeiras, assim como a Confederação Brasileira de Atletismo (CBA) também aparecem na lista de credores. A CBA tem R$ 500 mil a receber.
O grupo diz também que pretende voltar a crescer via fusões e aquisições (M&A), com foco em ativos estressados e na compra de empresas em dificuldade financeira. Também sinalizou a intenção de receber um novo aporte de capital com a entrada de um investidor estratégico, mas não há identificação de quem seria esse investidor.
Geração solar: R$ 1,88 bilhão a receber
Na área de energia, a Fictor atua por meio da subsidiária Fictor Energia, com foco em geração solar e tem nessa área uma outra fonte de recursos. Atualmente, diz a empresa, são quatro usinas fotovoltaicas em operação — em São Paulo, Amazonas e Goiás — somando um investimento de R$ 77,5 milhões. Outras dez unidades estão em diferentes estágios de desenvolvimento, sendo três já concluídas e aguardando conexão às concessionárias.
A receita mensal do setor, hoje em torno de R$ 1,3 milhão, pode chegar a R$ 5,3 milhões após a entrada em operação de todos os projetos, diz a empresa. A receita total estimada ao longo da vigência dos contratos é de aproximadamente R$ 1,88 bilhão.
Apesar do potencial, o plano estratégico prevê a conclusão dos investimentos e a posterior desmobilização — venda dos ativos — até meados de 2028.
De condomínios a galpões
Na divisão imobiliária, a Fictor Real Estate, que atua no desenvolvimento de condomínios multifamily, loteamentos residenciais e hotéis logísticos há projetos em operação em São Paulo, empreendimentos em construção no Rio de Janeiro e novos projetos em fase de planejamento, além de um hotel logístico com galpões de 9.000 m² voltados ao suporte de operações de e-commerce, afirma a Fictor. Assim como na energia, a estratégia é concluir os projetos e vendê-los até 2028, diz a empresa.
Publicado em O Globo